Classificação: Relato não verificado
Amityville: seis mortes, 28 dias e uma casa transformada em lenda
Em 1974, Ronald DeFeo Jr. matou seis familiares em Amityville. Um ano depois, George e Kathy Lutz relataram fenômenos na mesma casa e saíram após 28 dias. O crime é documentado; a assombração permanece uma alegação disputada.
Amityville, Nova York, Estados Unidos · Ver histórias deste lugar e arredores
Antes da casa, as pessoas
A fachada de Amityville tornou-se uma das imagens mais conhecidas do terror. Mas a história começou com seis pessoas, não com uma casa “maldita”. Na madrugada de 13 de novembro de 1974, Ronald DeFeo Sr., Louise DeFeo e seus filhos Dawn, Allison, Marc e John Matthew foram mortos a tiros dentro da residência da família, em Amityville, Long Island, Nova York. A filha Allison tinha um quarto com papel de parede florido; a família havia chamado a propriedade de “High Hopes”. Esses detalhes preservados pela reportagem histórica da ABC australiana devolvem escala humana a uma tragédia frequentemente usada como prólogo de filme.
O filho mais velho, Ronald DeFeo Jr., contou inicialmente à polícia que um assassino ligado à máfia havia atacado a família. Segundo o resumo dos fatos provados em julgamento reproduzido numa decisão judicial federal, no dia seguinte ele admitiu os disparos e indicou onde encontrariam a arma e outros vestígios. Em juízo, reconheceu ter matado os familiares, disse ter agido sozinho e alegou acreditar que eles pretendiam matá-lo. Foi condenado, em 1975, por seis homicídios em segundo grau; a condenação foi mantida em recurso. Versões posteriores que distribuem a culpa a outras pessoas existem, mas não substituem o resultado do processo nem demonstram intervenção sobrenatural.
A compra e os 28 dias
George e Kathy Lutz adquiriram a casa cerca de um ano depois. Em entrevista, George descreveu um casal que reunia duas famílias e procurava uma moradia maior. A notícia das mortes era conhecida; um amigo lhe sugeriu pedir uma bênção a um padre antes da mudança. A família entrou em dezembro de 1975 e deixou o imóvel 28 dias depois. Esse intervalo curto e a saída são parte da cronologia. O que teria ocorrido lá dentro é outra questão.
No relato dos Lutz, surgiram odores inesperados, frio, portas que batiam, aparições, alterações físicas em Kathy e episódios de despertar por volta de 3h15. O livro posteriormente adicionou imagens que ficaram famosas, como uma presença semelhante a um porco e substância verde saindo de fechaduras. George sustentou por décadas que os acontecimentos eram reais para a família. Atribuir essas cenas ao testemunho e ao livro é essencial: elas não foram verificadas por registros independentes capazes de demonstrar uma causa paranormal. A história do padre que teria ouvido uma ordem para sair da casa também deve ser lida como parte do relato transmitido pela família, e não como prova autônoma apresentada aqui.
O horário das 3h15 tornou-se uma costura dramática entre dois episódios de anos diferentes. O processo criminal identifica a madrugada de 13 de novembro de 1974, mas não estabelece uma origem sobrenatural para os homicídios; os despertares são uma alegação sobre a permanência dos Lutz. A aproximação narrativa de dois horários não é uma cadeia de evidências.
Quem investigou e quando
Uma sequência frequentemente omitida muda a leitura das “provas” da assombração. Na entrevista de 2005, George situou a visita de Ed e Lorraine Warren, outros médiuns, fotógrafos e uma equipe de televisão em março de 1976. A família já havia abandonado a casa. Portanto, mesmo quando esses visitantes disseram sentir algo ou produziram fotografias, não presenciaram os 28 dias descritos pelos Lutz. Investigavam um lugar marcado por um relato já em circulação.
Fotografias dessa visita continuaram a ser apresentadas como evidência, sobretudo uma figura às vezes chamada de “menino fantasma”. A imagem existe, mas sua data posterior à saída da família e a identidade incerta da figura não autorizam associá-la a uma das crianças DeFeo ou provar uma aparição. O ensaio do Skeptical Inquirer sobre as fotos permite ao leitor observar a discussão sobre iluminação, contexto e interpretação. Uma fotografia de uma investigação posterior é um vestígio dessa investigação, não uma janela automática para a experiência anterior.
O livro, a contestação e o negócio
Jay Anson publicou The Amityville Horror: A True Story em 1977. O filme de 1979 levou a história a um público ainda maior. O subtítulo “história real” aproximou acontecimentos de naturezas diferentes: seis mortes comprovadas, a permanência da família na casa e fenômenos extraordinários não demonstrados. Adaptações introduziram seu próprio ritmo e imagens; nem uma cena de cinema nem a capa de um livro funcionam como laudo.
A contestação começou cedo. Em reportagem de 1979, o Washington Post reuniu objeções a episódios do livro: um policial disse que os Lutz não o procuraram durante sua estadia, apesar da dimensão dos danos alegados; George respondeu que havia inconsistências e rejeitou a acusação de fraude. O advogado de defesa de DeFeo, William Weber, afirmou depois que ele e os Lutz teriam construído a narrativa em encontros ligados a um projeto de livro. Os Lutz negaram a fabricação. Weber também disputava interesses comerciais com o casal, e o litígio terminou em acordo. Sua acusação é um testemunho interessado, não uma sentença que resolve todas as experiências subjetivas da família.
Há outro detalhe quase sempre escondido atrás dos “olhos” da fachada: a suposta ligação do terreno a um cemitério indígena ou a práticas dos Shinnecock. O curador Seth Purdy, da sociedade histórica local, disse não haver registros que sustentem essas afirmações e situou a visita dos Lutz à instituição depois de sua saída da casa. Outra lenda, sobre um suposto bruxo chamado Ketcham nas imediações, tampouco tinha documentação local. Reciclar essas histórias como fato atribui a povos indígenas uma origem fictícia para um crime moderno.
O que a casa passou a representar
Moradores posteriores relataram não experimentar fenômenos comparáveis; alguns descreveram como principal incômodo a multidão de curiosos. Isso não permite provar o que os Lutz sentiram ou deixaram de sentir. Mostra, porém, que a fama da casa pode produzir consequências verificáveis sem que haja uma assombração verificável. Trata-se de uma residência privada; o ponto no atlas indica apenas Amityville, não o imóvel nem um convite à visita.
O limite da evidência é nítido. Há vítimas identificadas, investigação criminal, confissão registrada, julgamento e condenação. Há também o relato persistente dos Lutz, registros de uma visita paranormal posterior, checagens jornalísticas, objeções locais e interesses comerciais conflitantes. Nenhuma dessas peças demonstra que uma força sobrenatural matou a família DeFeo ou ocupou a casa. O mistério cultural de Amityville está em como um crime real foi convertido numa história vendida como experiência paranormal e em quantas vezes, nessa conversão, as seis pessoas mortas desapareceram atrás da fachada.
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Fontes
- DeFeo v. Artuz, 958 F. Supp. 104 — Tribunal Federal do Distrito Leste de Nova York, 1997
- The DeFeo family murders and the Amityville franchise — ABC News Australia, 2024
- George Lutz's Amityville Horror — entrevista de Jeff Belanger, 2005
- The Calamityville Horror — The Washington Post, 1979
- The Amityville Horror controversy — The Skeptical Inquirer, Winter 1979–80
- Resident Evil: local history and the Amityville legend — The Village Voice
- The Amityville Horror Photographs — Skeptical Inquirer
- Amityville Killer Ronald DeFeo Jr. Dies In Prison — CBS New York, 2021
Explore mais
Estes links ajudam a investigar o contexto; eles não confirmam, por si só, as alegações da história.
- DocumentoLeia a decisão judicial e compare-a com as versões do crime
- LeituraLeia a versão de George Lutz em entrevista de 2005
- LeituraExamine a checagem contemporânea das alegações feita em 1979
- DocumentoLeia a reportagem de época sobre a disputa com William Weber
- ImagemVeja a análise de fotografias feitas na investigação posterior
- LeituraExplore a pesquisa local que contesta a lenda do terreno indígena
- LeituraConheça a família DeFeo além da franquia de terror, com fotos de arquivo