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Classificação: Documentado

Castelinho da Rua Apa: três mortes, dois laudos e uma nova vida

Em 12 de maio de 1937, Maria Cândida Guimarães dos Reis e seus filhos Álvaro e Armando foram encontrados mortos no Castelinho paulistano. A polícia encerrou o caso, mas a divergência entre interpretações periciais alimentou dúvidas que atravessaram décadas.

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O castelo no centro de São Paulo

Quem passa pela esquina da Rua Apa com a Avenida São João vê torres e ameias onde se esperaria mais um prédio do centro de São Paulo. A residência da família Guimarães dos Reis, inaugurada em 1912, lembrava um castelo medieval. A família era ligada ao Cine Broadway e a outros imóveis da cidade. Essa arquitetura transformou a casa num marco visual; a noite de 12 de maio de 1937 a transformou em cenário de um dos casos policiais mais lembrados da capital.

A noite dos disparos

Naquela noite, tiros foram ouvidos na residência. Elza Lengenfeld, que trabalhava para a família e morava numa construção anexa, procurou ajuda. Quando a polícia entrou no imóvel, encontrou três pessoas mortas por disparos: a mãe, Maria Cândida Guimarães dos Reis, e os filhos Álvaro e Armando. Uma pistola foi localizada perto dos irmãos. Esses fatos (a data, as vítimas, a cena e a investigação) aparecem em reconstruções jornalísticas posteriores e na memória institucional da cidade. Já a sequência exata dos tiros exige mais cautela.

A versão da polícia

A explicação adotada pela polícia atribuiu a Álvaro o assassinato da mãe e do irmão, seguido de suicídio. Uma disputa sobre os negócios da família, sobretudo a proposta de transformar o cinema num rinque de patinação, foi apresentada como motivo. É uma hipótese histórica sobre a dinâmica do crime, não uma janela para o que os três disseram ou pensaram naquela noite. O Laboratório de Polícia Técnica sustentou essa reconstituição, e o inquérito foi encerrado. A maneira como o caso foi encerrado não eliminou as divergências.

Perícia e perguntas em aberto

Os médicos-legistas chegaram a apontar Armando como autor dos disparos, mencionando resíduos de pólvora em sua mão. Em reportagens e reexames posteriores, outros elementos voltaram a chamar atenção: a posição dos corpos e a informação de que projéteis retirados de Maria Cândida não correspondiam todos à arma encontrada. Essas questões aparecem na apuração do Linha Direta e são discutidas por pesquisadores que consultaram os antigos laudos. Elas abrem espaço para hipóteses concorrentes, inclusive a presença de uma quarta pessoa, mas não identificam tal pessoa nem provam que ela esteve ali. O nome de cada irmão foi ligado a conclusões distintas; atribuir culpa como fato seria ir além do que essa documentação permite.

O destino do imóvel

A tragédia também alterou o destino do imóvel. Sem herdeiros diretos sobreviventes, a propriedade entrou em uma longa disputa e acabou nas mãos da União. O Castelinho ficou anos fechado e deteriorado. Em 1982, segundo a Prefeitura, passou a ser ocupado por pessoas em situação de rua. O abandono ajudou a transformar a dúvida policial em lenda urbana: surgiram relatos de vultos e a fama de casa mal-assombrada. São relatos sobre o imaginário em torno do lugar, sem demonstração de atividade sobrenatural.

A proteção do edifício

Um detalhe revelador está no documento que protege o edifício. A resolução do CONPRESP de 2004 tombou o Castelinho por sua arquitetura residencial do início do século XX, sua presença na paisagem e seu vínculo com a primeira ocupação urbana daquela área. Ela determina a preservação da volumetria e das características externas, permitindo intervenções internas justificadas por restauro. O ato oficial reconhece valor histórico e arquitetônico; não certifica as histórias de assombração nem resolve o crime.

Depois de anos de mobilização do Clube de Mães do Brasil e de uma obra financiada pelo Fundo Estadual de Direitos Difusos, o Castelinho foi reinaugurado em abril de 2017 para atividades voltadas a pessoas em situação de vulnerabilidade. A Prefeitura registrou a abertura à comunidade e o trabalho social da organização. Fotografias históricas reunidas pelo São Paulo Antiga permitem comparar o edifício de antes da degradação, o período de ruína e o restauro. Esse percurso amplia a história além da noite do crime: a construção sobreviveu à especulação, ao abandono e à própria fama.

Três histórias no mesmo endereço

Há, portanto, três perguntas diferentes neste endereço. Quem morreu ali? Os registros respondem. Como ocorreram as mortes e quem disparou? As interpretações preservadas entram em conflito. Há fantasmas no Castelinho? Isso pertence ao campo do relato e da lenda, sem prova verificável nas fontes consultadas. Hoje, o fato mais concreto da sua permanência é outro: uma casa associada por décadas ao medo foi preservada e passou a servir pessoas vivas.

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Fontes

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Estes links ajudam a investigar o contexto; eles não confirmam, por si só, as alegações da história.