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Classificação: Relato não verificado

Chupacabra: como nasceu e mudou o monstro de Porto Rico

Em 1995, mortes de animais, uma testemunha em Canóvanas e uma caçada organizada pelo prefeito fizeram nascer uma lenda continental. Necropsias e testes de DNA explicaram casos concretos, mas a criatura bípede do relato original nunca foi comprovada.

Canóvanas, Porto Rico, Estados Unidos · Ver histórias deste lugar e arredores

Antes do nome, os animais mortos

Em 1995, criadores em Porto Rico encontravam cabras, ovelhas, aves e outros animais mortos ou feridos. Feridas no pescoço e a impressão de que os corpos estavam “sem sangue” ganharam mais atenção que os próprios exames. O prejuízo e o medo eram reais; a atribuição a um único predador desconhecido ainda era uma hipótese. Uma reportagem da Associated Press de dezembro registrou que, em Orocovis, veterinários do governo examinaram um grupo de ovelhas, inclusive sobreviventes com marcas no pescoço, e atribuíram o ataque a cães soltos. Isso não resolvia automaticamente todas as ocorrências da ilha, mas já mostrava por que reunir casos diferentes sob uma só assinatura era arriscado.

O nome “chupacabras” surgiu nesse clima. Em um episódio do podcast porto-riquenho En qué quedó, o radialista Silverio Pérez contou como reagiu no ar a uma notícia sobre animais mortos em Orocovis e usou a palavra em tom espirituoso. O ex-prefeito de Canóvanas José “Chemo” Soto também lhe atribuiu o nome em entrevista posterior. O termo pegou porque oferecia uma explicação pronta antes de se conhecer a causa das mortes: alguém, ou algo, estaria sugando o sangue das cabras.

Uma criatura à luz do dia

A imagem que atravessou as fronteiras veio de Madelyne Tolentino. Ela disse ter visto, em agosto de 1995, uma figura bípede diante da casa de sua mãe no bairro Campo Rico, em Canóvanas. No relato publicado ainda naquele dezembro, a comparou a um canguru sem cauda. Em entrevistas posteriores, descreveu olhos grandes, braços compridos, mãos finas e projeções nas costas. Não era o canídeo pelado que se tornaria comum em fotos dos anos 2000. A cena, segundo ela, ocorreu durante a tarde, um contraste com os ataques noturnos aos animais.

Essas entrevistas são documentos de um testemunho, não imagens da criatura. Uma reconstituição publicada em 2025 por Benjamin Radford confrontou a entrevista de 1996 com outra feita por ele em 2010. Detalhes mudaram: a quantidade de dedos e a história de um jovem que teria alcançado o ser e aberto sua boca não aparecem do mesmo modo na versão posterior. Não há fotografia, espécime ou depoimento independente desse encontro que permita conferir os pormenores. A divergência não autoriza acusar a testemunha de fraude; impede, porém, que a descrição seja tratada como registro físico.

Há ainda uma conexão cultural surpreendente. Tolentino mencionou em entrevista de 1996 a semelhança entre o que descrevia e a criatura do filme Species, lançado em 1995. Radford propôs que a imagem cinematográfica influenciou o relato. É uma hipótese sobre memória e cultura visual, não uma prova de que ela inventou conscientemente o encontro. A semelhança ajuda a entender como um retrato pode se fixar e se espalhar, mesmo sem um animal capturado.

A busca de Canóvanas

Para quem perdia animais, a história não era apenas entretenimento. Soto organizou buscas nos arredores de Canóvanas. Reportagens de 1995 acompanharam moradores, policiais e agentes de defesa civil percorrendo áreas de vegetação; uma expedição chegou a usar uma cabra enjaulada como isca. A cobertura trouxe o medo para a política local e também uma preocupação prática: o chefe da polícia alertou contra pessoas armadas e sem treinamento procurando um atacante desconhecido.

O prefeito afirmou então que dezenas de animais haviam morrido no município. Esse número era uma alegação local, não uma contagem de mortes causadas pelo mesmo bicho. Em entrevista de 2016, ele continuava convencido de que algo incomum rondara a região; também admitiu que nunca vira o Chupacabra. A distinção importa: sua caçada é fato documentado, enquanto a identidade do responsável pelos animais não foi estabelecida pela expedição.

O que as necropsias mudaram

Em janeiro de 1996, o diretor de serviços veterinários de Porto Rico, Héctor García, informou à Associated Press que cerca de vinte necropsias realizadas nos meses anteriores pelo laboratório do Departamento de Agricultura não encontraram nada inexplicável. Algumas marcas eram compatíveis com mordidas de cães; outros animais haviam morrido de pneumonia ou hepatite. Os sistemas cardiovasculares examinados estavam intactos, contrariando a afirmação de que aqueles corpos tinham sido esvaziados de sangue.

Essa é a peça mais forte para avaliar a alegação central, mas tem alcance definido: cerca de vinte corpos examinados, não todas as mortes relatadas. A escassez de sangue visível numa carcaça não demonstra, por si, sucção; sem necropsia documentada, não se pode reconstruir causa, momento da morte e perda de sangue. Na época, houve veterinários particulares que acharam certas feridas incomuns. Suas observações merecem registro, mas não substituem uma amostra identificada ou uma cadeia de evidências que ligue todos os casos a uma espécie nova.

Um antecedente que não é o mesmo ser

Porto Rico já conhecia relatos de mortes misteriosas de animais. Recortes do jornal El Vocero preservados pela Biblioteca Virtual de Puerto Rico mostram a narrativa do “Vampiro de Moca” em 1975. A semelhança temática (animais, feridas, suposta falta de sangue) pode ter ajudado o público a reconhecer a história de 1995. Isso não prova que o monstro de Moca e a figura bípede de Canóvanas eram um mesmo animal que reapareceu vinte anos depois. As descrições e o contexto diferem; a ligação é sobretudo folclórica.

A metamorfose do século XXI

Quando a palavra viajou para o continente, a aparência mudou. Nos Estados Unidos, numerosos “chupacabras” passaram a ser quadrúpedes de pele exposta e dentes aparentes. Aqui houve material testável. Em 2007, um animal encontrado perto de Cuero, Texas, teve tecido analisado na Texas State University. O resultado o identificou como coiote. A universidade não afirmava, naquele momento, ter determinado a causa exata da perda de pelo daquele espécime; o teste genético respondia à espécie.

Especialistas da Texas A&M explicaram posteriormente por que canídeos com sarna se parecem com muitas dessas imagens: ácaros causam perda de pelo, crostas e alteração da pele; os pelos restantes no dorso podem sugerir uma crista. Um predador debilitado também pode buscar presas confinadas mais fáceis. Isso oferece uma explicação sólida para vários relatos do tipo canídeo, mas não identifica retrospectivamente o que Tolentino viu em Porto Rico. Tampouco significa que toda morte de animal atribuída ao Chupacabra teve a mesma causa.

O limite da evidência

O Chupacabra é um fenômeno cultural documentado: mortes reais de animais, buscas públicas, entrevistas e uma figura que passou a circular por todo o continente. O “sugador de sangue” bípede não foi demonstrado por espécime, registro verificável ou necropsia. Alguns supostos exemplares posteriores eram animais conhecidos, e casos examinados em Porto Rico tiveram causas comuns. A pergunta mais fértil talvez seja como um nome passou a unir acontecimentos distintos e como, a cada nova fotografia, o monstro ganhou outro corpo.

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Fontes

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Estes links ajudam a investigar o contexto; eles não confirmam, por si só, as alegações da história.