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Classificação: Relato não verificado

O 'lobisomem' do IML de Curitiba: Paraibinha e a pista de 1977

A múmia é real, mas o homem por trás da lenda quase desapareceu dos relatos. Uma notícia de Campo Largo publicada em 1977 muda a cronologia e revela uma briga, um sobrevivente e uma testemunha que a polícia procurava.

Curitiba, Paraná, Brasil · Ver histórias deste lugar e arredores

O corpo exposto no museu do IML

Durante décadas, visitantes do museu do Instituto Médico Legal de Curitiba encontraram uma figura identificada pelo apelido de Paraibinha. Reportagens posteriores o apresentaram como um assassino em série morto por um lobisomem. Mas uma edição de O Liberal, jornal de Campo Largo datada de 9 de outubro de 1977, conta outra história ou, pelo menos, conserva uma versão muito mais próxima dos acontecimentos. A distância entre o papel de 1977 e a lenda que veio depois é o centro deste dossiê.

A reportagem de 1977

A notícia local, intitulada 'Briga de foice no escuro', situa os fatos numa derrubada de matas da Fazenda Trombini, em Morro Grande, perto de Três Córregos. O texto chama a vítima de Paraibinha e diz que seu nome seria, segundo se acreditava, José Paulo Vanderlei, natural de Patos, na Paraíba. O próprio jornal ressalva a identificação; sem registro civil ou processo consultado, ela não pode ser tratada como definitiva. A matéria identifica o outro envolvido como Osvaldo Miguel Rodrigues, de 21 anos, natural de São João do Ivaí e responsável pelo serviço na fazenda.

O confronto no barraco

Segundo essa reportagem, os dois se desentenderam num barraco na noite de sábado, 10 de setembro de 1977, depois de beber. O jornal afirma que Paraibinha estava com uma faca e feriu Osvaldo. Osvaldo teria separado os homens, desarmado Paraibinha e deixado a briga. Por volta das 6h30 da manhã seguinte, ainda segundo o relato publicado, Paraibinha voltou com uma foice ao encontro de Osvaldo. Na luta, Osvaldo teria tomado o instrumento e atingido o adversário. A notícia registra onze golpes e diz que Osvaldo, também ferido, andou cerca de sete quilômetros até encontrar transporte para a delegacia de Campo Largo.

O que ainda era investigado

Esses detalhes fazem diferença porque o jornal também informa o que ainda faltava apurar: Osvaldo foi encaminhado à custódia em Curitiba, a polícia buscava a arma e procurava um homem referido apenas como João, indicado como possível testemunha e então desaparecido. Trata-se de uma reportagem sobre uma investigação em andamento, não de um laudo ou de uma decisão judicial. Ela não demonstra legítima defesa, homicídio intencional nem a responsabilidade de Paraibinha por outros crimes. O acervo localizado para este dossiê tampouco trouxe um processo que estabeleça quantas vítimas, se alguma, podem ser atribuídas a ele.

Como a memória mudou os fatos

A memória publicada depois alterou pontos importantes. Em 1987, o Correio de Notícias já descrevia o corpo preservado numa redoma de vidro do IML, na Avenida Visconde de Guarapuava, mas situava a morte em 1975. Em 2009, a Folha de Londrina ouviu o curador Joel Camargo, que informou 11 de setembro de 1977, data compatível com a sequência descrita por O Liberal. A reportagem de 2009 atribuiu ao IML a constatação dos golpes de foice, mas não mostrou o laudo. Não sabemos por que a notícia de 1987 antecipou o ano em dois anos. O registro de 1977 é mais próximo do fato, embora ainda precise ser confrontado com documentos periciais e policiais originais.

Quando surgiu o lobisomem

A camada sobrenatural é posterior nas fontes consultadas. Um texto de 2014, apresentado expressamente como lenda, narra a vingança de um jovem chamado Paulo, supostamente transformado em lobisomem após a morte da família. A Tribuna do Paraná registrou em 2018 que algumas pessoas atribuíam a morte de Paraibinha a uma criatura peluda. São versões da tradição oral e da internet; o artigo de O Liberal descreve uma briga entre homens identificados, sem criatura ou família vingada. Não encontramos fonte contemporânea que documente a participação de um lobisomem. Também não é possível determinar quando essa parte da lenda começou a circular.

O mistério material da preservação

Existe um mistério material atrás da vitrine: como aquele corpo permaneceu reconhecível? Em 1987, o museólogo Geraldo Domahovski contou ao Correio de Notícias que empregava formol e outros produtos químicos aplicados pela jugular; a secagem, disse, levava meses. A reportagem inclui fotografia da múmia e registra que a visitação era restrita. A imagem é um documento da exposição e do trabalho de conservação, não uma prova das narrativas atribuídas ao homem. Ao longo dos anos, a peça continuou a aparecer em reportagens e na comunicação institucional sobre o acervo.

Campo Largo e Curitiba

Campo Largo é o lugar do episódio descrito em 1977; Curitiba é onde o corpo se tornou conhecido. A Polícia Científica situa a origem do museu atual no Museu do Crime, de 1910, enquanto a reportagem de 1987 data a criação do museu do IML de 1975. São marcos de fases institucionais que as fontes disponíveis não conciliam por completo. O antigo necrotério funcionou entre 1975 e 2018. Depois de passar por outra sede, a coleção voltou ao endereço histórico da Avenida Visconde de Guarapuava em 2025; a página oficial informa que visitas guiadas exigem agendamento.

O que o caso permite concluir

Paraibinha não precisa de uma origem sobrenatural para revelar algo inesperado. O jornal de 1977 preservou uma versão concreta da briga, o percurso de um homem ferido e uma testemunha ainda procurada. Os relatos seguintes conservaram o corpo, mas simplificaram ou modificaram a história. O que falta (identidade confirmada, laudo, inquérito e eventual desfecho judicial) continua sendo parte essencial do caso. Antes de aceitar o rótulo de monstro ou assassino em série, é preciso lembrar que há uma pessoa real no centro dessa coleção forense e que alegações graves exigem documentos à altura.

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Fontes

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Estes links ajudam a investigar o contexto; eles não confirmam, por si só, as alegações da história.