Classificação: Relato não verificado
As pedras voadoras do Capão da Imbuia
Em janeiro de 1974, pedras quebraram as vidraças de uma casa em Curitiba enquanto policiais, vizinhos e religiosos procuravam uma explicação. A cobertura da época documenta a investigação e também como um testemunho isolado se tornou lenda.
Curitiba, Paraná, Brasil · Ver histórias deste lugar e arredores
As pedras na casa de madeira
No começo de janeiro de 1974, uma casa de madeira no Capão da Imbuia, bairro da zona leste de Curitiba, começou a receber pedras. Vidros se quebravam; telhas também sofreram danos. Os moradores Ildefonso e Irene Till viram a residência se transformar em ponto de encontro de policiais, repórteres e curiosos. A primeira noite de ataques foi situada em 2 de janeiro pela reconstrução histórica da Câmara Municipal de Curitiba, que consultou edições do Diário do Paraná publicadas a partir do dia 5. O que chegava à casa era visível. De onde vinha, ninguém conseguiu demonstrar de forma conclusiva.
A busca policial
A polícia procurou os possíveis atiradores em terrenos vizinhos e no bosque do então Instituto de Defesa do Patrimônio Natural, hoje associado ao Museu de História Natural do Capão da Imbuia. Segundo a imprensa da época, as pedras chegavam a pesar 300 gramas e pareciam percorrer uma trajetória horizontal. Essa descrição pertence às testemunhas e ao jornal; não equivale a uma medição preservada que exclua um arremesso humano. O mesmo noticiário relata policiais disparando contra as árvores depois de dias de buscas infrutíferas. Em volta, uma multidão acompanhava cada novo impacto, tornando ainda mais difícil distinguir observação direta, rumor e interpretação.
A resposta do bairro
No domingo, 6 de janeiro, a resposta do bairro passou também pela Paróquia de São Benedito. O padre abençoou chaves de casas e ramos nas três missas da manhã. Para parte dos moradores, era uma forma de proteção; para outros, o centro do caso continuava sendo a busca por quem lançava as pedras. Parapsicólogos aventaram telecinese, enquanto representantes religiosos ofereceram outras leituras. Nenhuma dessas interpretações estabeleceu a causa dos ataques. A sucessão das missas e a interrupção posterior dos apedrejamentos, por si só, não prova uma relação causal.
A história dos talheres
A história dos talheres mostra como uma notícia ganha camadas. Na edição de 8 de janeiro, o Diário do Paraná reproduziu a alegação de um policial de que utensílios mudavam de lugar e chegavam a voar. No dia seguinte, o próprio jornal reduziu o alcance da afirmação: apenas um policial dizia ter visto uma colher voando. Ildefonso Till negou ter presenciado a levitação de objetos. Na ausência de registro independente, a colher pertence à categoria dos testemunhos isolados, não à dos fenômenos comprovados.
Suspeitas sem conclusão
Till suspeitava de uma vingança ligada a conflitos no bairro. Um bilhete ameaçador, supostamente encontrado por um guarda-florestal, foi descrito pelo jornal como possível pista. Sua procedência não foi demonstrada na documentação consultada, e não há base para atribuir os ataques às pessoas mencionadas nos rumores da época. As versões policiais tampouco fecharam a investigação: um soldado falou à reportagem em três detidos, mas um sargento e um tenente negaram que os responsáveis tivessem sido identificados. Quando o jornal informou, em 9 de janeiro, que as pedradas haviam cessado após quatro noites, o autor continuava desconhecido.
O outro caso de 1962
Há um capítulo anterior capaz de enganar quem pesquisa o episódio: em 1962, outra casa do Capão da Imbuia também foi apresentada como assombrada. Naquele caso diferente, a Radiopatrulha identificou uma fraude, segundo a imprensa citada pela Câmara. O desfecho de 1962 não resolve o que aconteceu com os Till em 1974. Confundir as duas histórias fabrica uma conclusão que os registros do segundo caso não oferecem.
O que ficou da investigação
A família acabou deixando a casa, e a construção foi demolida. Em entrevistas feitas pela Câmara quase cinco décadas depois, um vizinho ainda lembrava o tumulto das noites de janeiro; sua memória tardia ajuda a entender a repercussão, mas não substitui os jornais contemporâneos. Outra moradora contou que viveu no imóvel depois da saída dos Till e não presenciou nada incomum. O próprio Ildefonso, ainda em 1974, reclamava que a exposição pública e as chacotas pesavam mais que a reposição de vidros e telhas. O mistério mais duradouro talvez seja esse: uma investigação sem autor identificado virou uma história de assombração, enquanto o custo cotidiano ficou com quem morava ali.
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Fontes
- A casa mal-assombrada de Curitiba: o mistério das 'pedras voadoras' — Câmara Municipal de Curitiba, parte 1
- A casa mal-assombrada de Curitiba: as missas e as chaves benzidas — Câmara Municipal de Curitiba, parte 2
- A casa mal-assombrada de Curitiba: das 'pedras voadoras', só ficou a história — Câmara Municipal de Curitiba, parte 3
- A casa mal-assombrada de Curitiba: a família que nunca mais voltou — Câmara Municipal de Curitiba, parte 4
- Referências bibliográficas da série histórica — Câmara Municipal de Curitiba
Explore mais
Estes links ajudam a investigar o contexto; eles não confirmam, por si só, as alegações da história.
- ImagemMontagem da Câmara com recortes da cobertura de janeiro de 1974
- VídeoVídeo da Câmara de Curitiba sobre o caso
- DocumentoReferências da pesquisa histórica da Câmara, com edições do Diário do Paraná
- LeituraO desfecho inconcluso e o caso diferente de 1962
- LeituraO que vizinhos lembravam quase cinco décadas depois