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Classificação: Documentado

Roberto Wagner Fernandes: três mulheres, duas décadas e uma identificação após a morte

A polícia da Flórida vinculou Roberto Wagner Fernandes por DNA às mortes de Kimberly Dietz-Livesey, Sia Demas e Jessica Good, entre 2000 e 2001. A trilha passa pelo julgamento da morte de Danyelle Bouças Fernandes em Londrina, pela exumação do suspeito e por suspeitas adicionais que não se tornaram conclusões.

Miami, Flórida, Estados Unidos · Ver histórias deste lugar e arredores

O caso começa pelas mulheres

Em 22 de junho de 2000, o corpo de Kimberly Dietz-Livesey foi encontrado em uma mala à beira de uma estrada de Cooper City, na Flórida. Em 9 de agosto, encontraram Sia Demas em uma bolsa de viagem perto de Dania Beach. Mais de um ano depois, em 30 de agosto de 2001, Jessica Good foi localizada na Baía de Biscayne, em Miami. As datas e os lugares constam do comunicado do gabinete do xerife de Broward. Kimberly tinha 35 anos, Sia 21 e Jessica 24, segundo as reportagens que acompanharam o anúncio policial.

Os três casos não são um único crime com três vítimas. Ocorreram em cidades e momentos diferentes, investigados por órgãos distintos. As duas primeiras mulheres sofreram agressões fatais; Jessica morreu por ferimentos de arma branca. Essa diferença inicial ajudou a manter o caso de Jessica separado dos outros. A classificação policial de assassino em série surgiu depois que provas físicas ligaram os homicídios; não há condenação criminal americana, pois o suspeito morreu antes de poder ser julgado.

Antes da Flórida: a morte de Danyelle

Na madrugada de 18 de novembro de 1996, a professora Danyelle Amaral Bouças Fernandes, de 27 anos, morreu após ser atingida por dois disparos no apartamento onde morava com Roberto, em Londrina, Paraná. A Folha de Londrina noticiou o caso no dia seguinte, registrando que o marido saíra do prédio com a filha e se tornara o principal suspeito. Em depoimento divulgado dias depois, Fernandes admitiu ter disparado, mas afirmou que os tiros ocorreram durante uma luta pela arma e que agira para se defender.

O caso foi levado ao Tribunal do Júri, que o absolveu. Esse resultado é um fato jurídico central: a morte de Danyelle é documentada, assim como os disparos atribuídos a Fernandes em seu próprio relato, mas ele não foi condenado por homicídio no Brasil. Reportagens retrospectivas usam expressões como “primeira vítima” à luz das descobertas posteriores nos Estados Unidos. O dossiê não transforma essa interpretação posterior em um veredito que o júri brasileiro não proferiu. O ponto do atlas é Miami, centro aproximado da investigação americana, e não o apartamento de Danyelle.

A outra voz registrada em 1996

A cobertura de 22 de novembro de 1996 preservou versões conflitantes sobre uma agressão anterior. Solange Nunes Ramalho procurou a polícia e relatou que Roberto a havia atacado durante um encontro e que buscara atendimento médico. Fernandes apresentou outra narrativa: segundo ele, a discussão começara por dinheiro e ela o teria agredido. A reportagem registrou tanto o depoimento dela quanto a contestação da defesa. O nome de Solange importa porque uma queixa de violência feita por uma mulher envolvida em trabalho sexual apareceu no histórico do caso, mas não recebeu uma decisão que autorize o leitor a tratá-la como fato judicialmente provado.

A Folha de S.Paulo apurou em 2022 que o procedimento relativo à agressão acabou extinto após a morte do investigado. A mesma reportagem mencionou uma acusação posterior, em processo sob segredo de Justiça, de tentativa de abuso sexual de menor; o caso prescreveu. Nenhuma dessas duas informações equivale a condenação. Tampouco a absolvição pela morte de Danyelle apaga a existência do depoimento de Solange. A distinção entre queixa, processo, absolvição e conclusão pericial é decisiva aqui.

Por que Jessica levou a polícia a Fernandes

Após a morte de Jessica, a polícia de Miami tinha Fernandes como pessoa de interesse, mas ele voltou ao Brasil antes de ser interrogado. Anos mais tarde, o detetive de Broward Zachary Scott explicou em entrevista ao podcast Cold Case Files: Miami que o namorado de Jessica havia transmitido aos investigadores informações sobre a pessoa com quem ela planejara se encontrar. A entrevista descreve uma pista ligada a uma empresa de turismo e a um veículo. Isso ajuda a entender como surgiu um nome no inquérito de Miami enquanto os crimes de Broward ainda não tinham um autor identificado.

A entrevista foi gravada décadas depois e sua transcrição automática tem erros de nomes e palavras. Por isso, essa reconstrução deve ser lida como memória atribuída ao investigador, não como reprodução de um depoimento ou laudo original. O comunicado oficial é mais restrito: registra que a suspeita sobre Fernandes surgiu no caso Good e que o brasileiro regressou ao seu país. Também não há prova pública de que as três mulheres tenham conhecido o suspeito da mesma maneira.

O elo que faltava entre três investigações

Duas das cenas dos crimes tinham impressões digitais compatíveis entre si, e os investigadores conservaram perfis biológicos. A polícia de Broward e a de Miami colaboraram, mas a identificação permaneceu aberta por anos. Em 2011, uma nova análise do material do caso Good produziu um perfil de DNA que coincidiu com o perfil desconhecido ligado aos dois homicídios de Broward. Na entrevista de 2025, Scott disse que o processamento ocorreu após recursos adicionais para examinar casos antigos de Miami. A notícia importante naquele ponto era: as três mortes estavam ligadas ao mesmo homem.

Ainda faltava demonstrar que esse homem era Fernandes. Impressões digitais colhidas no Brasil após a morte de Danyelle foram comparadas aos vestígios das cenas americanas e apontaram para ele. DNA e digitais tiveram, portanto, papéis diferentes: o primeiro conectou os três homicídios; as segundas ajudaram a dar um nome ao perfil desconhecido. Uma pista circunstancial de 2001 ganhou força com provas físicas anos depois. Reconstituir essa ordem impede a ideia enganosa de que a polícia possuía, desde o início, um único exame definitivo e ignorou seu resultado.

O morto que precisou ser identificado

Quando investigadores americanos tentaram obter uma amostra diretamente de Fernandes, souberam que ele teria morrido em 2005, num acidente aéreo no Paraguai. A notícia do acidente não encerrava a verificação da identidade: era preciso saber se os restos enterrados pertenciam de fato ao homem procurado. Na entrevista de 2025, Scott relatou dúvidas que circularam entre policiais sobre a sepultura e a documentação do traslado. São dúvidas históricas da investigação, não evidência de que Fernandes sobrevivera.

Após cooperação com autoridades brasileiras e americanas, a sepultura foi aberta entre o fim de 2020 e o começo de 2021. O comunicado de Broward registra que os restos foram encontrados e que o perfil genético era compatível com o material das três cenas. Scott acrescentou posteriormente que uma amostra de referência familiar ajudou a verificar a identidade dos restos, antes do confronto com os perfis americanos. A exumação respondeu duas perguntas distintas: quem estava na sepultura e se esse material correspondia ao perfil dos homicídios.

O anúncio de 2021 e seu alcance

Em 31 de agosto de 2021, o gabinete do xerife de Broward e a polícia de Miami anunciaram publicamente que as provas identificavam Roberto Wagner Fernandes como responsável pelos homicídios de Kimberly, Sia e Jessica. A CBS Miami, que acompanhou a entrevista coletiva, registrou a explicação sobre DNA, digitais e exumação e a reação de Michael Livesey, ex-marido de Kimberly, após duas décadas de espera por uma resposta. O anúncio policial é uma conclusão investigativa forte, sustentada pelo material genético relatado pelas autoridades.

Não é, contudo, sentença de um tribunal. Fernandes já estava morto e jamais pôde ser denunciado, contestar as provas ou ser condenado pelos três crimes na Flórida. Dizer “identificado pela polícia” é mais preciso do que dizer “condenado”. A morte do suspeito também impediu um interrogatório que poderia esclarecer a escolha das vítimas, a sequência dos encontros e a existência de outros crimes. O desfecho fechou uma questão forense importante para as famílias, mas não respondeu a todas as perguntas históricas.

O número além de três

A autoridade de Broward disse em 2021 que Fernandes poderia estar ligado a outros homicídios. No podcast de 2025, Scott reafirmou sua suspeita pessoal, observando o intervalo de mais de um ano entre a morte de Sia e a de Jessica. O próprio detetive relatou que, ao examinar outros casos, a equipe encontrou pelo menos um crime associado a outro autor. Isso mostra por que um padrão aparente ou uma lacuna temporal não bastam para somar vítimas a um suspeito.

Até as fontes consultadas para este dossiê, três homicídios na Flórida são os casos ligados a Fernandes por DNA e anunciados nominalmente pela polícia. A morte de Danyelle pertence a outra categoria probatória e judicial: Fernandes foi julgado e absolvido no Brasil. As denúncias de violência e o processo prescrito tampouco são “novos assassinatos”. Qualquer total superior a três exige casos identificados, provas próprias e o estado de cada investigação. O título “possível serial killer” é cauteloso quanto a vítimas adicionais; quanto aos três homicídios americanos, a identificação policial foi explícita.

O que o rótulo pode esconder

As fontes policiais e parte da imprensa ressaltaram que as três mulheres tinham histórico de uso de drogas e trabalho sexual. Esses dados podem explicar a pista territorial investigada pelos detetives, mas não definem quem elas foram nem reduzem a gravidade de suas mortes. A reportagem local sobre Danyelle lembrou sua atuação como professora em Londrina e a homenagem posterior com uma rua que leva seu nome. Ao conversar com a Folha de Londrina, a pesquisadora Silvana Mariano chamou atenção para a forma como depoimentos de mulheres em trabalho sexual podem ser desvalorizados. É uma análise dela sobre o contexto, não uma prova de que um viés específico tenha decidido o júri.

A investigação atravessou fronteiras e décadas porque vestígios foram preservados e reexaminados. Também mostra uma consequência da fragmentação: Broward tinha dois casos ligados por vestígios; Miami tinha uma pessoa de interesse; Londrina guardava outro conjunto de registros. A pergunta que une os arquivos não é quantas vezes se pode chamar Fernandes de “monstro”, mas como cada evidência passou de uma jurisdição à outra e que resposta pôde ser dada às famílias.

O limite da evidência e o caminho de leitura

Documentado: três mulheres foram assassinadas no sul da Flórida entre 2000 e 2001; a polícia vinculou os três crimes por DNA e identificou Fernandes após a exumação. Danyelle morreu a tiros em Londrina em 1996 e o júri absolveu o marido. Relatado, sem decisão condenatória: a denúncia de agressão de Solange e outra acusação posterior. Em aberto: se Fernandes cometeu homicídios adicionais e quais seriam eles. As fontes públicas utilizadas não trazem sentença americana, pois ele morreu antes do anúncio.

Para percorrer a trilha, comece pelo comunicado do xerife, que fixa nomes, datas e exames; leia depois a cobertura de Londrina de 1996, para distinguir o que se sabia na época do que se concluiu retrospectivamente; por fim, ouça Scott narrar em 2025 os obstáculos da cooperação internacional. O podcast acrescenta bastidores, mas a transcrição é automática e deve ser conferida no áudio. A questão ainda aberta não autoriza atribuir vítimas anônimas a Fernandes: respeitar as três mulheres identificadas e as famílias que esperaram uma resposta é parte da precisão deste caso.

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Fontes

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Estes links ajudam a investigar o contexto; eles não confirmam, por si só, as alegações da história.