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Classificação: Documentado

UVB-76: o zumbido de 4625 kHz e a rede por trás do mito

Há décadas, uma frequência russa em ondas curtas repete um zumbido interrompido por vozes, indicativos e grupos de números. Os registros permitem reconstruir sua evolução e seu provável papel em uma rede militar; não revelam o significado das mensagens nem sustentam a lenda de um gatilho nuclear.

Povarovo, Oblast de Moscou, Rússia · Ver histórias deste lugar e arredores

Um som que ocupa a frequência

Sintonizar 4625 kHz em banda lateral superior pode revelar uma sequência áspera e repetitiva, interrompida de vez em quando por uma voz em russo. É esse contraste (horas de zumbido, segundos de palavras aparentemente indecifráveis) que deu à transmissão o apelido de The Buzzer, “o Zumbidor”. Não se trata de um programa destinado ao público. Para quem acompanha a frequência, o som contínuo funciona como marcador de canal entre mensagens. A voz, quando entra, faz parte do tráfego; o zumbido não é, por si, uma mensagem secreta decifrada por alguém.

A frequência está na faixa de ondas curtas. Seus sinais podem atravessar grandes distâncias ao interagir com a ionosfera, mas a recepção muda com a hora, a estação do ano e as condições do espaço próximo à Terra. Ouvir o canal em outro país não localiza automaticamente o transmissor. Também não prova que a emissão veio sempre do mesmo equipamento. Segundo os registros reunidos pelo grupo de monitoramento Priyom, a rede usa mais de um local de transmissão.

Antes do nome famoso

Os primeiros relatos da estação remontam à década de 1970; uma gravação preservada pelo acervo de monitoramento é de 1982. Naquele período, o marcador soava como um tom mais agudo, repetido aproximadamente a cada dois segundos. A forma de zumbido hoje conhecida apareceu depois. Esses vestígios não autorizam fixar um dia de inauguração: indicam apenas que a frequência já era acompanhada naquela época.

O famoso nome “UVB-76” também guarda um erro. O indicativo antigo era УЗБ76, transliterado UZB76; a letra cirílica З foi lida como se fosse um V latino. O equívoco se espalhou tanto que se tornou o nome popular da estação. Indicativos posteriores incluíram MDZhB, ZhUOZ, ANVF e NZhTI. Essa sucessão mostra por que não se deve tratar UVB-76 como nome oficial e permanente de um único transmissor.

A primeira voz registrada

O histórico compilado pela Priyom aponta 24 de dezembro de 1997 como a primeira mensagem de voz documentada em seus registros: um indicativo, números, uma palavra-código e mais grupos numéricos. “Primeira registrada” é diferente de “primeira transmitida”: pode ter havido mensagens anteriores que ninguém gravou ou arquivou. É uma distinção pequena, mas crucial para não transformar uma lacuna de acervo em um fato histórico.

A estrutura se repetiria em outras chamadas. O operador lê um ou mais indicativos, elementos numéricos, uma palavra de controle e blocos de números ou letras, em geral reiterando a mensagem. Isso permite descrever a forma, não traduzir o conteúdo. A palavra pronunciada não precisa ter o sentido comum que possui no dicionário. Sem o plano de comunicações e as chaves dos destinatários, ouvintes externos não sabem a ordem, seu destinatário exato nem se um evento político próximo tem relação causal com ela.

O microfone que ficou aberto

Nem tudo que vazou em 4625 kHz foi uma ordem codificada. O acervo registra conversas captadas por engano, como um episódio em 2001, quando um microfone aparentemente aberto deixou passar fala comum. Em 2010, durante testes e mudanças no sinal, ouvintes registraram a música O Lago dos Cisnes. O episódio se tornou matéria-prima para teorias, embora o contexto de teste seja uma explicação bem mais parcimoniosa que uma mensagem de catástrofe.

Há outra armadilha: ocupar a mesma frequência não é o mesmo que operar a mesma estação. A reportagem da WIRED documenta intervenções de piratas de rádio e músicas sobrepostas ao canal, especialmente no período recente. Uma gravação isolada, sem horário, modo de recepção e comparação com outros receptores, não basta para atribuir um som aos operadores da rede. O que parece uma mudança de comportamento pode também refletir interferência ou mais gente ouvindo e registrando.

Povarovo e a mudança de 2010

Até setembro de 2010, segundo a Priyom, a rede estava associada ao Distrito Militar de Moscou e transmitia a partir do 143º centro de comunicações em Povarovo, na região de Moscou. O ponto exibido no mapa deste dossiê representa essa associação histórica, em escala aproximada. Não identifica a origem de cada emissão atual nem convida à busca por uma instalação operacional.

Na reorganização daquele ano, a rede mudou de estrutura e de indicativos. Passou a servir o Distrito Militar Ocidental e, após a dissolução desse distrito em 2024, o Distrito Militar de Leningrado, conforme o acompanhamento da Priyom. O grupo aponta controle na região de São Petersburgo e transmissores identificados perto de São Petersburgo e Moscou, que podem ser alternados. Uma “estação misteriosa abandonada” é, portanto, uma imagem insuficiente para descrever um sistema distribuído e mutável.

A lenda da “rádio do fim do mundo”

A ideia mais dramática afirma que o zumbido seria ligado ao Perimeter, sistema soviético/russo associado à retaliação nuclear, e que o silêncio desencadearia algum mecanismo automático. Os registros públicos citados aqui não demonstram essa ligação. O padrão observado (marcadores de canal, mensagens de voz, indicativos trocados, falhas técnicas e testes) combina melhor com uma rede de comunicação de comando. Essa é uma interpretação apoiada por monitoramento, não acesso público ao manual interno da rede.

Em 2025, a WIRED examinou como o apelido “rádio do apocalipse” foi usado em narrativas políticas e em especulações após mensagens divulgadas na internet. A coincidência entre uma transmissão e uma notícia internacional pode render manchete; não decifra os grupos lidos ao microfone. Tampouco um intervalo de silêncio equivale a uma confirmação de ataque. A análise exige distinguir o que o receptor captou do significado que terceiros atribuíram depois.

Como investigar sem inventar um código

O caminho mais fértil para o leitor é comparar gravações datadas, páginas de atividade e a história dos indicativos. Pergunte quando o áudio foi captado, qual receptor o gravou, se outros ouvintes registraram o mesmo sinal e se a voz parece vir da rede ou de alguém sobreposto na frequência. Logs de amadores são valiosos, mas incompletos: ausência de registro não prova ausência de transmissão. O guia histórico da Priyom mostra tanto a persistência do marcador quanto momentos de teste e acidentes; a página atual permite seguir a cronologia posterior.

O que sabemos é concreto: há uma transmissão de longa duração em 4625 kHz, mensagens de voz em formatos recorrentes e uma história de mudanças geográficas e organizacionais observada por monitores. O que permanece fechado é o conteúdo operacional das mensagens e a totalidade de quem as recebe. A força deste caso está nessa fronteira: é possível investigar uma rede real, ouvir seus rastros e reconhecer o ponto exato em que a evidência termina.

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Fontes

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Estes links ajudam a investigar o contexto; eles não confirmam, por si só, as alegações da história.